O caminho do serviço – Dom Alberto Taveira

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Dom Alberto Taveira nos ensina,

Encerrou-se há poucos dias a 52ª Assembleia Geral dos Bispos do  Brasil. Trata-se de uma ocasião privilegiada de partilha de experiências e  busca de caminhos adequados para o serviço do Evangelho em nosso país.  Dez dias de trabalho intenso, muita oração, decisões tomadas e planos  assumidos em conjunto, num magnífico exercício do que a Igreja chama de  colegialidade. É que os bispos, unidos ao Papa, vivem como um corpo, um  “colégio”, a missão que lhes é confiada. Ao lado de muitos outros temas  importantes, três grandes assuntos foram tratados e transformados em  preciosos subsídios para a atuação evangelizadora da Igreja: a questão  agrária no início do Século XXI, com um documento destinado a balizar a  presença pastoral da Igreja Católica no campo; o importante texto sobre a  Paróquia como Comunidade de Comunidades, amadurecido no diálogo  pastoral desde o ano passado, cuja prática indica os passos missionários a serem percorridos pela Igreja no Brasil; enfim, um estudo sobre a presença  dos leigos e leigas na Igreja, entregue agora ao Povo de Deus de todo o nosso  país.

 O texto sobre “Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade” (Cf.  números 70 e 71) afirma que o Concílio Vaticano II fundamentou toda a  Igreja nas missões de Cristo e do Espírito Santo. É o Espírito Santo que  capacita todos os batizados para participarem na obra de Cristo: todos os  cristãos são chamados (como sacerdotes) à obra sacerdotal, a oferecerem as  suas vidas como sacrifício espiritual; todos são chamados (como profetas) a  escutar e proclamar a Palavra; todos são chamados (como administradores)  a trabalhar pela vinda do Reino de Deus. (Cf. Lumen Gentium, n. 31). Todos  os cristãos e, portanto, todos os homens e mulheres batizados, leigos na  Igreja, não apenas pertencem à Igreja, mas “somos um só corpo em Cristo, e cada um de nós, membros uns dos outros” (Rm 12, 5). Não se deve falar em  superioridade de dignidade de pertença à Igreja, quando são comparados os  membros da hierarquia e os cristãos leigos – segundo esta mentalidade, os  primeiros seriam “mais” Igreja do que os leigos e, portanto, mais dignos.  Esta mentalidade, errônea em seu princípio, esquece que a dignidade não  advém dos serviços e ministérios no interior da Igreja, mas da própria  iniciativa divina, sempre gratuita, da incorporação a Cristo pelo batismo. A  dignidade dos membros e a graça da filiação são comuns a todos porque o  povo chamado por Deus se insere em uma realidade que é – “um só Senhor,  uma só fé, um só batismo” (Ef 4, 5). São João Paulo II (Christifideles laici, n.  11) ensinou que, ao sair das águas do batismo, “todo o cristão ouve de novo  aquela voz que um dia se fez ouvir nas águas do Jordão: ‘Tu és o meu Filho  muito amado’” (Lc 3, 22), e compreende ter sido associado ao Filho,  tornando-se filho de adoção e irmão de Cristo.  É com esta grande liberdade que os cristãos das primeiras  comunidades encontraram respostas para se organizarem, como a  instituição daqueles sete homens “de boa fama, repletos do Espírito e de  sabedoria” (Cf. At 6, 1 7), aos quais foi confiada a tarefa da caridade,  reservando-se os apóstolos para a oração e o serviço da Palavra.

 Também  relatam os Atos dos Apóstolos que “na Igreja de Antioquia havia profetas e  mestres. Certo dia, enquanto celebravam a liturgia em honra do Senhor e  jejuavam, o Espírito Santo disse: ‘Separai para mim Barnabé e Saulo, a fim  de realizarem a obra para a qual eu os chamei’. Jejuaram então e oraram,  impuseram as mãos sobre Barnabé e Saulo e os deixaram partir” (Cf. At 13,  1-3). Nascem os missionários, pouco a pouco se configuram os diversos  ministérios, segundo os dons concedidos pelo Senhor. Mais para frente, a  Igreja verá organizados os serviços dos Bispos, sucessores dos Apóstolos,  dos Presbíteros e Diáconos. O correr da História da Igreja testemunhou o  surgimento de carismas e ministérios, famílias de pessoas consagradas ao Senhor, envio missionário sempre renovado, regado pelo sangue dos  mártires. 

Como exercer as diversas tarefas que são confiadas aos cristãos de  todas as idades e vocações? Haverá algum lugar privilegiado? Porventura  alguém deve buscar os primeiros lugares? É clara a orientação do Senhor,  que “não veio para ser servido, mas para servir” (Mt 20, 28). Quando seus  discípulos acolhem seus discursos de despedida, na última Ceia, as tensões  e o medo tomavam conta de seus corações (Cf. Jo 14, 1-12). Tomé quer saber o caminho, Felipe almeja a visão do Pai, todos se sentem inseguros, a saudade mostra seu rosto. E Jesus lhes mostra um caminho que tem nome, o seu, para chegar à vida plena. E todas as perguntas são respondidas por quem é a verdade! 

 A estrada mestra é a do serviço. “Como, num só corpo, temos muitos membros, cada qual com uma função diferente, assim nós, embora muitos, somos em Cristo um só corpo e, cada um de nós, membros uns dos outros. 

Temos dons diferentes, segundo a graça que nos foi dada. É o dom de profecia? Profetizemos em proporção com a fé recebida. É o dom do serviço? Prestemos esse serviço. É o dom de ensinar? Dediquemos-nos ao ensino. É o dom de exortar? Exortemos. Quem distribui donativos, faça-o com simplicidade; quem preside,presida com solicitude; quem se dedica a obras de misericórdia, faça-o com alegria. O amor seja sincero. Detestai o mal, apegai-vos ao bem. Que o amor fraterno vos una uns aos outros, com terna afeição, rivalizando-vos em atenções recíprocas” (Rm 12, 4-10). 

A proposta vai contra a correnteza de toda a competição devoradora que nos envolve! Leigos e Leigas, Bispos, Sacerdotes, Diáconos, Religiosas e Religiosos, todos encontrarão seu espaço quando estiverem dispostos a dar a vida uns pelos outros. Afinal, “quem quiser salvar sua vida a perderá; mas quem perder sua vida por causa de mim e do Evangelho, a salvará” (Mc 8, 35). Este é o lugar de todos e de cada um. Parece impossível? O Senhor Jesus é o exemplo e, mais ainda, é a fonte da graça para quem escolher seu caminho.